Na semana passada tive um trabalho publicado na prestigiosa revista Physical Review Letters (ou simplesmente "PRL"), escrito em parceria com os amigos/colaboradores Edson Vernek, Gerson Ferreira (ambos da Universidade Federal de Uberlândia), Caio Lewenkopf (Universidade Federal Fluminense) e Sergio Ulloa (Ohio University).
Este artigo foi resultado de mais de três anos de pesquisa e árduo trabalho. Eu gostaria de compartilhar com os leitores do blog um pouco dos bastidores para ilustrar como é tortuoso o caminho entre uma ideia inicial e uma publicação em uma revista de alto impacto.
- O início: os resultados experimentais do ETH
Tudo começou com uma visita do Caio ao ETH-Zurique em abril de 2014. O grupo do Klaus Ensslin tinha uns resultados experimentais interessantes "saindo do forno" e queriam discutir alguns pontos que não estavam entendendo.
O experimento do grupo do ETH envolvia medidas de alta precisão da corrente elétrica em um "circuito" nanoscópico formado por um ponto quântico acoplado a uma "cavidade" e ambos conectados a contatos metálicos pelos quais passa uma corrente elétrica. O esquema deste circuito está ilustrado na figura abaixo.
A figura à esquerda mostra uma imagem do circuito propriamente dito feito com um microscópico eletrônico. A tecnologia empregada para fazer o dispositivo é impressionante. O grupo do ETH domina técnicas de litografia capaz de "desenhar" tais estruturas (e fazer os contatos funcionarem!) com alguns nanômetros de precisão. Para dar uma ideia, o maior elemento no circuito é a cavidade, que tem um comprimento de cerca de 1 micron. Isto é cerca de cem vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. Sem falar na alta qualidade da amostra de semicondutor (arseneto de gálio) sobre o qual a estrutura foi feita: as amostras saem do laboratório de Werner Wegscheider (que, por sinal, esteve recentemente no Brasil), um dos melhores do mundo no que faz.
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Experimento do grupo do ETH.Esq. esquema do "circuito" nanoscópico. Dir: medidas da condutância para o casos de acoplamento fraco (acima) e forte (abaixo) entre ponto quântico e cavidade. Adaptado de PRL 115 166603 (2015) |
O experimento consiste, basicamente, em passar uma corrente elétrica que sai da fonte ("source") e é coletada em um sumidouro ("drain"). Mede-se então a condutância através do dispositivo, formado por um ponto quântico ("dot") e uma cavidade ("cavity"), que são regiões onde os elétrons ficam temporariamente confinados. Um aspecto importante é que existe um controle bastante grande nos parâmetros, tais como tensões de gate aplicadas no ponto quântico e na cavidade e a temperaratura. Vale ressaltar que tudo é feito a temperaturas baixíssimas (menos de 4 Kelvin) de modo que o sistema é refrigerado a Hélio líquido. Hoje em dia, isto é algo standard neste tipo de experimento. O interessante é que o sistema é pequeno e limpo o suficiente para que efeitos da natureza ondulatória do elétron (previstos pela mecânica quântica) se manifestem.
A figura à esquerda mostra uma imagem do circuito propriamente dito feito com um microscópico eletrônico. A tecnologia empregada para fazer o dispositivo é impressionante. O grupo do ETH domina técnicas de litografia capaz de "desenhar" tais estruturas (e fazer os contatos funcionarem!) com alguns nanômetros de precisão. Para dar uma ideia, o maior elemento no circuito é a cavidade, que tem um comprimento de cerca de 1 micron. Isto é cerca de cem vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. Sem falar na alta qualidade da amostra de semicondutor (arseneto de gálio) sobre o qual a estrutura foi feita: as amostras saem do laboratório de Werner Wegscheider (que, por sinal, esteve recentemente no Brasil), um dos melhores do mundo no que faz.
Sem a cavidade, o que temos é o tunelamento de elétrons através do ponto quântico, o que resulta em uma sequência de picos na condutância separados por vales de condutância baixa, causados pelo chamado bloqueio de Coulomb dos elétrons. Se a temperatura for muito baixa (da ordem de dezenas de mili-Kelvin), algo um pouco mais exótico pode ocorrer: o efeito Kondo, cuja assinatura é o aumento da condutância em alguns dos vales. Se a cavidade estiver presente, a natueza ondulatória do elétron se manifesta e a formação de padrões de interferência dos elétrons influem nos resultados das medidas da condutância.
Estes resultados aparecem no experimento no caso em que o acoplamento do ponto quântico com a cavidade é baixo. Neste caso, o transporte através do sistema é uma sequência de picos (Figura à esquerda) que advém de uma mistura do efeito Kondo com a cavidade. No entanto, algo diferente aparece para o caso de acoplamento alto: os picos são suprimidos e viram "vales". Este último era o resultado que o pessoal do ETH não entendia.
- Formulando o modelo
Caio mostrou estes resultados para mim e para o Sergio Ulloa, que já tinhamos escrito um artigo publicado no PRL em 2006 fazendo uma análise teórica/computacional de um sistema parecido com o do ETH. Durante o ano de 2014, eu trabalhei em uma modificação do nosso modelo anterior para incluir a cavidade, bem como na implementação do código de simulação computacional do modelo. Os primeiros resultados saíram no final de 2014 e início de 2015 e eram promissores.
Em maio de 2015, o Klaus Ensslin veio ao Brasil participar do 17o Brazilian Workshop on Semiconductor Physics em Uberlândia, organizado pelo Edson e pelo Gerson. Conversamos sobre o tema e mostrei alguns dos resultados preliminares. Ele achou interessante mas perguntou se eu havia calculado a condutância, o que ainda estava por fazer. Nesta mesma conferência, conversei com o Edson e com o Gerson e soube que estavam interessados no mesmo problema. Decidimos unir forças.
- Os primeiros problemas
Logo percebemos que o cálculo da condutância era um problema difícil. O procedimento-padrão para este cálculo neste tipo de sistema é usar a fórmula de Landauer ou, no caso, a extensão para sistemas interagentes proposta por Meir e Wingreen em um famoso paper de 1992. O problema é que a fórmula de Meir e Wingreen se aplica a uma classe de dispositivos em que a geometria do acoplamento com os contatos obedece à chamada condição de "acoplamento proporcional".
Em termos simples, isto significa que se um sistema está acoplado a dois contatos (L e R), para todo caminho que leva do contato L ao sistema. tem que haver um acoplamento parecido do sistema para o contato R. Além disso, as intensidades dos acoplamentos L-sistema e sistema-R tem que ser proporcionais entre si.
Em termos simples, isto significa que se um sistema está acoplado a dois contatos (L e R), para todo caminho que leva do contato L ao sistema. tem que haver um acoplamento parecido do sistema para o contato R. Além disso, as intensidades dos acoplamentos L-sistema e sistema-R tem que ser proporcionais entre si.
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Representação do nosso modelo para o circuito. Adaptado de PRL 119 116801 (2017) |
Isto definitivamente não era o caso do sistema do ETH. Como mostra a figura acima, a cavidade estava acoplada ao contato da direita (R) mas não ao da esquerda (L).
Estávamos em um impasse: ou desistíamos do cálculo da condutância ou tentávamos fazer algum tipo de generalização da fórmula de Meir e Wingreen para sistemas que não obedecem o acoplamento proporcional, algo que nunca havia sido feito. Decidimos tentar a segunda (e audaciosa) opção.
Em meados de 2015, o Caio veio à USP passar um tempo visitando o grupo do Adalberto Fazzio e aproveitamos para trabalhar neste problema. Ele teve um insight e vimos que, no nosso caso, seria possível escrever uma expressão para a condutância mas que não seria simples. As manipulações algébricas eram longas e tediosas. De qualquer modo, tínhamos encontrado o fio da meada.
- Bugs e mais bugs...
Encontramos uma expressão e trabalhei no código computacional para fazer as contas. Parecia tudo bem mas havia um problema grave: para alguns valores de parâmetros, a expressão da condutância retornava valores que não faziam sentido físico nenhum. Ou seja, havia algum erro no código ou nas contas.
O código foi exaustivamente rechecado e parecia ok. O Gerson escreveu um outro código para testar uma versão mais simples do modelo e o resultado batia com o meu. Chegamos à conclusão que o problema era nas contas. Este processo de checagem e re-checagem levou quase um ano (!).
Em outubro de 2016, o Edson veio a São Paulo e decidimos abrir todas as contas até achar o problema. Colocamos tudo em um grande quadro negro da sala de seminários do DFMT no Instituto de Física da USP (foto abaixo) e procuramos por algo errado.
Depois de algumas horas olhando as contas, finalmente encontramos o erro.
Depois de algumas horas olhando as contas, finalmente encontramos o erro.
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Eu (dir) e Edson Vernek (esq) no dia em que encontramos o erro nas contas. |
- Escrevendo o paper
Além disso, mostramos que o efeito Kondo estava sempre presente, algo que o pessoal de Zurique argumentou que não ocorria. Estávamos oferencendo uma interpretação alternativa, em que a diferença entre os dois regimes era causada essencialmente de interferências quânticas e não por uma supressão do efeito Kondo.
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Resultados do nosso modelo (esquerda) reproduzem qualitativamente os resultados experimentais (direita): picos na condutância para acoplamento fraco se tornam vales quando o acoplamento é forte. |
Submetemos o artigo ao PRL em fevereiro de 2017. Recebemos o primeiro round de reviews em maio. Um dos referees recomendou o paper para publicação e o outro concordava que o paper era bom e interessante mas não achava que tinha novidade suficiente para um PRL (recomendou publicação no PRB). Recorremos e oferecemos novos argumentos, mostrando que a extensão da fórmula de Meir-Wingreen que derivamos não era trivial. Afinal, era um problema em aberto há mais de 20 anos. Também refizemos algumas contas e obtivemos resultados ainda mais condizentes com os do experimento.
Na resubmissão, o paper foi para um terceiro referee que concordou com nossos argumentos. O paper estava aceito.
- Afinal, o sucesso!
Recebemos a notícia logo antes do 18o Brazilian Workshop on Semiconductor Physics que eu e o prof. Felix Hernandez organizamos este ano e do qual todos os autores (Edson, Gerson, Caio, Sergio e eu) participamos. Resolvemos fazer um brinde para comemorar.
No geral, este trabalho mostra que o caminho até um resultado importante pode ser longo e árduo. Foram 3 anos de trabalho e, por mais de uma vez, achei que seria difícil emplacar um PRL. O esforço acabou recompensado.
valeu pelo vinho! Espero apenas que seja chileno, da varietal "Carménère" (só sobrevivente no Chile)...salud!
ResponderExcluirPaulo, especializado em condutividade enológica.
Pinot Noir do Valle de Limari. Viva Chile! :)
ExcluirMuito Legal o artigo, Parabéns á todos os envolvidos
ResponderExcluirObrigado!
ExcluirParabéns pelo resultado e pelo blog!
ResponderExcluirObrigado!!
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