domingo, 5 de junho de 2016

O quão grave é a crise financeira da USP?

Imagine que você seja o sìndico de um prėdio que arrecada R$ 100 mil por mês em condomínios. O problema é que você tem que pagar R$ 104 mil em salários ao zelador, porteiros, faxineiros, etc. Todos esses funcionários tem estabilidade (não podem ser demitidos) e os moradores não querem nem ouvir falar em aumento no valor do condomínio. A reserva de caixa que você usa para pagar as contas e manter os elevadores funcionando acaba em um ano. O que você faz?

Bem-vindo à crise da USP.

Segundo dados da Coordenadoria de Administração Geral (CODAGE), entre janeiro a julho de 2016 a Universidade de São Paulo recebeu uma média mensal de R$ 374,6 milhões em repasses relativos à quota-parte do ICMS. Ocorre que, no mesmo período, a USP gastou uma média de R$ 392,4 milhões em salários (vide tabela abaixo). Ou seja, mais de 104% de compromentimento das receitas com folha de pagamento. Esse número só tende a piorar, dado que a arrecadação do ICMS está em queda.


De onde vem, então, o dinheiro para cobrir essa diferença e todo o resto do custeio (luz, água, manutenção, investimentos, etc.)? Tem vindo de uma reserva financeira que a USP construiu ao longo dos anos. Segundo um parecer da Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP) do Conselho Universitário da USP, esta reserva estava em R$1.382 milhões no final de abril, com previsão de ficar em R$592 milhões ao final de 2016. 

Com base nesses dados e fazendo uma conta simples (a famosa "regra de 3" que os vestibulandos adoram), chegamos à conclusão que as reservas estão diminuindo a uma taxa de aproximadamente R$ 98 milhões por mês (obviamente isso varia mês-a-mês mas é uma estimativa razoável).  Em outras palavras, se nada mudar, estas reservas terminarão em junho do ano que vem. 

Mesmo com um reajuste pequeno nos salários (de 3%, beeem abaixo da inflação acumulada), essa taxa subiria para R$ 109 milhões por mês, segundo a COP. Isso significa que o dinheiro acaba mais cedo, possivelmente no final de abril/início de maio de 2017 (estimativa minha).

Depois disso, nada. Zero. zilch, nothing.

Quais as alternativas e cenários? A reitoria não tem dado muitas, além do discurso de "conter gastos". Parece até uma estratégia deliberada até que a situação chegue a níveis insuportáveis, inclusive com atraso no pagamento de salários e do 13o. Isto é o que está nas entrelinhas de uma mensagem do Gabinete do Reitor em 11 de maio último sobre a declaração de greve dos funcionários:

Esse tipo de provocação não faz parte das relações modernas entre servidores e a administração da instituição, e adquire ainda mais gravidade nesse momento de grandes incertezas políticas e econômicas, com desemprego crescente, perda de valor de salários, redução brutal de receitas públicas e até atrasos e suspensão de pagamentos de salários por entes públicos.

 A solução proposta pelos sindicatos (Sintusp e Adusp) é simples: deem-nos mais dinheiro. Isso é a base da chamada "luta" contra o aumento de 3%   e por mais repasses de recursos  Acho improvável um aumento nos repasses do governo estadual na atual conjuntura. Tal demanda é é inócua frente a uma pressão de boa parte da sociedade (e do próprio governo do PSDB) contrária ao aumento de gastos públicos. 

O que me preocupa de verdade são que greves na USP acabam sendo um tiro no nosso próprio pé na medida que provocam reações como as ilustradas abaixo. São comentários de uma noticia recente da Folha sobre uma passeata de funcionários da USP em greve:



Embora exista o "troll bias" (um viés de crítica rançosa e sem fundamentos típica da Internet) nesses comentários, meu sentimento é que este tipo de pensamento está cada vez mais comum. Estamos perdendo a batalha que realmente importa: a de mostrar à sociedade paulista e brasileira o que significa ter uma univesidade de pesquisa de ponta em um país como o Brasil. Mostrar que, na USP, a grande maioria dos docentes e servidores trabalha, e muito (hoje, Domingo, estou rodando simulações computacionais e trabalhando em outro artigo, além de corrigir projetos de alunos e escrever este post).

Sem o apoio da sociedade, a "luta" estará, de fato, perdida.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Entrevista ao blog Aleatoriedades Científicas


Nesta semana, dei uma entrevista ao blog Aleatoriedades Científicas (ou não).

O blog é gerido por dois estudantes (Rafael Azevedo e Mateus Galdino) do curso de Química da USP e é voltado para os próprios estudantes de Graduação, com video-aulas, entrevistas e outros conteúdos,

Achei a iniciativa bastante positiva e fico feliz de poder ter contribuido com o projeto.

Na entrevista, falo um pouco de minha carreira, de como é ser um pesquisador em Física e também sobre temas de interesse direto dos estudantes como iniciação científica e até empreendorismo (!).

O Rafael foi meu aluno no único curso de Laboratório que ministrei na USP até hoje. Não deixa de ser irônico já que, na entrevista, eu conto um episódio que me fez ter certeza que não seria um bom físico experimental.

Confira o audio da entrevista:

ou faça o download do mp3 aqui.


sábado, 17 de outubro de 2015

Virada Científica 2015

Participei hoje da Virada Científica da USP, promovida pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão. Trabalho totalmente voluntário mas muito gratificante.

É uma oportunidade rara de "abrir" os Institutos científicos da USP para interagir com a sociedade, o que é sempre muito bom. O Instituto de Física, por exemplo, promoveu visitas a laboratórios de pesquisa, demonstrações, e uma exposiçâo sobre um dos pioneiros da Física no Brasil, Giuseppe Occhialini.

Hoje dei uma de "produtor/diretor"  para gravar depoimentos dos participantes da Virada no IF e depois postar no canal do YouTube da Virada. Muita garotada, pais com filhos, prê-vestibulandos decidindo carreira, curiosos. Mas todos com alguma idéia do que a Ciência pode (ou não) fazer pela sociedade.

Me espantou a clareza de racicínio de alguns depoimentos. Vejam, por exemplo, o que a Isabela de 17 anos fala sobre "que tipo de problema a Ciência pode ajudar a resolver".




PS - Agradecimento especial ao Alexsandro Kirch pela ajuda com os videos e ao prof. Marcelo Munhoz e à Mônica Pacheco da Comissão de Cultura e Extensão do IF-USP pelo "apoio logístico."

domingo, 5 de julho de 2015

Diário de Viagem: BWSP

Voltando a blogar, aproveito para fazer um update nas conferências. Maio foi um mês agitado neste sentido. Comecemos com o 17th Brazilian Workshop in Semiconductor Physics em Uberlândia, MG.

Essa é uma das minhas conferências favoritas. Por ser realtivamente pequena (120-150 pessoas), a BWSP é montada em uma única sessão de talks, sem sessões paralelas, o que permite que todo mundo acompanhe a conferência inteira.

Os convidados deste ano foram de alto nível, como vem ocorrendo nas últimas conferências. Meus destaques vão para Klaus Ensslin do ETH Zurich, uma boa turma em isolantes topológicos: Andrei Bernevig (Princeton), Ewelina Hanckiewicz (Wursburg) Benedikt Scharf (Buffalo), e também trabalhos interessantes em grafeno de Eva Andrei (Rutgers) e Nancy Sandler (Ohio University), esta última colaboradora e amiga de longa data.

Klaus falou de um experimento recente com quantum dots no regime Kondo  acopladas a cavidades. Como ele gentilmente mencionou no talk, eu, Nancy Sandler, Sergio Ulloa e Kevin Ingersent trabalhamos em um modelo parecido há algum tempo. Os resultados dele parecem confirmar o que havíamos previsto: um "splitting" da ressonância de Kondo devido ao acoplamento com a cavidade. A interpretacao que6 eles dão é um pouco difererente (discutimos isso longamente...) mas acho que a Física é essencialmente a mesma.

Outra que falou de coisas relacionadas a trabalhos recentes em que estive envolvido foi a Eva Andrei de Rutgers. Seu seminário centrou em experimentos de STM em grafeno suspenso com vacâncias: defeitos na rede do grafeno provocados pela ausência de átomos de carbono. Ao final da palestra, fiz uma pergunta sobre a possibilidade de ela ver sinais de efeito Kondo neste tipo experimento, uma vez que outros grupos relataram assinaturas deste tipo de efeito na literatura.

Eva respondeu que tinha alguns resultados nesse sentido mas que faltava uma teoria para explicar o mevanismo. Bom, eu, Vladimir Miranda e Caio Lewenkopf (ambos da UFF) recentemente propusemos um mecanismo justamente neste caso. Foi uma boa discussão científica além de uma oportunidade para fazer propaganda do trabalho.

Outro seminário inteeessante foi o do Andrei Bernevig. Ele deu um excelente tutorial sobre isolantes topológicos usando apenas o quadro negro, Em breve, postarei mais sobre o assunto.

O lugar: 

Localizada no Triângulo Mineiro, uma das regiões mais prósperas de Minas, Uberlândia alia boa qualidade de vida a um custo relativamente baixo. Por ser uma cidade média (em torno de 700 mil habitantes) e boa estrutura, a cidade tem atraído muita gente boa que prefere sair dos grandes centros em prol de uma melhor qualidade de vida. 

Um exemplo é o Departamento de Física da Universidade Federal de Uberlândia, que tem feito excelentes contratações nos últimos anos. Não duvido que a UFU logo, logo seja a "2a força" em Física de Minas, concorrendo diretamente com a UFMG. 

Como das outras vezes que estive lá, o destaque foi para as churrascarias e para o queijo meia-cura que comprei no Mercado Municipal.

sábado, 18 de outubro de 2014

E se houvesse eleição para a Bolsa de Produtividade do CNPq?


Assistindo a esses debates, me pergunto: e se a Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq fosse obtida através de uma eleição? Com direito a debate ao vivo, retórica de políticos profissionais e ataques bolados por marqueteiros? Acho que seria mais ou menos assim:

Moderador: Bem-vindos ao Debate entre candidatos à Bolsa de Produtividade do CNPq. De um lado, a Candidata A, candidata à renovação de sua Bolsa de nível 1. Temos do outro lado o candidato B, que tenta passar ao nível 1 pela primeira vez. As regras foram acertadas com as assessorias dos candidatos. A Candidata A começa perguntando e teremos réplica e tréplica.

Candidata A: - Candidato, me assusta a sua baixa produtividade ao longo dos últimos 5 anos.  O senhor, candidato, publicou apenas 11 papers, sendo que o senhor não é primeiro autor em nenhum. Como explicar esse fracasso ao povo brasileiro?

Candidato B: - Candidata, a senhora está sendo leviana, distorcendo os fatos. Minhas publicações foram TODAS, repito, TODAS em revistas de impacto maior que 2. Sim, candidata, boas revistas, difíceis de publicar. Não aceito críticas injustas, candidata. E não sou o primeiro autor porque esse é um privilégio para meus alunos e pós-docs, que tomaram a liderança nos papers.

A: - Candidato, o fato é que a sua produção é pequena. Veja você, telespectador, que nosso grupo publicou 23 artigos nesses últimos 5 anos. Sim, mais do que o dobro da produção do candidato. Essa é a marca do nosso compromisso com o avanço da ciência nesse país.

Moderador: Agora o Canditado B faz a sua pergunta.

B: - Candidata, me impressiona a senhora ter a coragem de dizer ao povo brasileiro que avançou a ciência. Seus artigos tem todos mais de 5 autores e vários deles foram publicados em proceedings de conferências! Isso não é avanço, candidata, isso é retrocesso, uma confirmação da política do "quanto mais, melhor" e que baixa o nivel médio das publicações brasileiras. O que a senhora acha disso?

A: - Candidato, minha pesquisa é experimental e envolve bastante gente pela própria natureza do que fazemos. É um esforço colaborativo, fruto de um trabalho em equipe, diferente do individualismo selvagem dos seus trabalhos teóricos. Sim, candidato, faço questão que meus alunos viajem para conferências importantes e apresentem seus trabalhos e, por que não?, publiquem em proceedings. Nada mais justo pelo enorme trabalho que eles tiveram.

Lembro ainda ao candidato que esses meus artigos geraram mais citações que os seus artigos, candidato. Nem sempre "boas revistas" geram impacto!

B: - Candidata, publicar em proceedings serve apenas para atender aos interesses das grandes editoras, como Elsevier e Springer, que apoiam a sua campanha, candidata. E vamos falar de citações: meus artigos têm média de 10 citações por artigo, quase o dobro da média dos seus artigos. Números absolutos não contam toda a história, candidata, e o eleitor sabe disso. Sabe diferenciar um projeto de qualidade de outro, que preza apenas pela quantidade. Nosso projeto é o melhor, que tem maior potencial para gerar citações, que são o futuro do país.

Moderador: Candidata A, a sua pergunta.

A: - Candidato, os números não mentem. O fato é que nossos artigos tiveram 120 citações nos últimos 5 anos e os seus tiveram apenas 110. Simples assim, candidato. E nossas citações beneficiaram a carreira de vários cientistas iniciantes, que podem agora lutar por melhores condições no mercado de trabalho. O que o senhor acha da situação do emprego de nossos jovens doutores?

B: - A candidata admite que a sua política assistencialista de publicar artigos com vários autores para maximizar o efeito de citações. Por favor, candidata, seja sincera com o povo brasileiro. Nos diga que essa sua política, na verdade, não dá maturidade aos nossos jovens pesquisadores, não os ensina a pescar, candidata! Que tipo de profissionais estamos formando?

A: - Candidato, o senhor está mal-informado. No que se refere à formação, nossos jovens doutores estão sendo bem formados, com experiência internacional e publicando artigos. Os números não mentem: o número de artigos publicados e citações vem crescendo a cada ano e isso tem se refletido no benefício à ciência brasileira, à carreira dos nossos alunos.

Moderador: A última pergunta do bloco será feita pelo Candidato B.

B: - Candidata, me manterei nesse mesmo assunto. A senhora diz no seu curriculo Lattes que formou 5 alunos de Mestrado e 2 alunos de Doutorado nesses últimos 5 anos. Me pergunto, candidata, como a senhora teve tempo para isso? Em nosso grupo, a formação de alunos é algo que levamos muito a sério, e damos apoio individualizado a cada aluno e pós-doc, com ênfase nos cursos básicos e na formação em técnicas teóricas e computacionais. Isso tudo leva tempo, candidata! O povo brasileiro quer saber quem, de fato, está por trás dessa "formação em série"?

A: - Candidato, a resposta é muito simples: o trabalho incansável de todo o nosso grupo. Professores jovens, técnicos de laboratório, pós-docs, todos põem a mão na massa e trabalham no alinhamento dos lasers, nas bombas de vácuo, na briga pelo hélio líquido. Enfim, estamos trabalhando, candidato, e o fruto deste trabalho é a formação desses jovens talentos, sob minha liderança. De novo, os números não mentem, candidato. Na verdade, me espanta o baixo número de alunos formados no seu grupo.

B: - De novo, candidata, a senhora desconhece nosso trabalho. Nosso aluno de doutorado acabou de defender a tese e vai fazer pós-doc em Stanford por conta da boa formação que ele teve aqui. Aqui prezamos pela qualidade na formação dos nossos alunos, candidata! Nossos 2 alunos de mestrado já trabalham com teoria quântica de campos e vão cumprir excelentes projetos de Doutorado com sanduíche no exterior. São poucos, mas teremos bastante impacto.

Moderador: Com isso concluímos este bloco... Perdão? A Candidata A pede direito de reposta para esclarecer que um ex-aluno seu está em Los Alamos... Produção? Pedido negado, candidata.

Voltamos a seguir, com as considerações finais dos candidatos.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A crise da USP em números.

A crise da USP chegou a um ponto em que está afetando suas irmãs paulistas. A proposta de 0% de aumento salarial feita pelo CRUESP (conselho de reitores das três universidades paulistas) parece inaugurar uma nova era de contenção de gastos e de austeridade nas universidades estaduais de São Paulo, com as previsíveis consequências negativas para toda a sociedade paulista (e brasileira, como um todo).

Em uma carta recente à comunidade, o novo Reitor da USP argumenta que, embora vários fatores contribuam (gastos com obras grandes no campus, por exemplo), o cerne do problema está no tamanho da folha de pagamento. Os dados fornecidos mostram que o orçamento da USP está 100% comprometido com a folha. Todo o resto (custeio, melhorias no campus, investimentos em pesquisa, etc.) tem vindo de uma reserva que a universidade construiu ao longo dos anos. Em outras palavras: estamos torrando nossa poupança a uma taxa de R$ 1 bilhão por ano para pagar salários e manter a Universiade funcionando.

Para ter uma idéia melhor dos números por trás da crise, fui atrás dos dados do CRUESP, disponíveis aqui. O gráfico abaixo mostra o peso percentual da folha de pagamento no orçamento total das três universidades paulistas desde 2009.

Fonte: dados do CRUESP (link)

Como mencionado na carta do Reitor, a USP passou de uma situação "confortável" de 80% de compromentimento da folha em 2009 aos 100% atuais. Já o aumento na Unesp e Unicamp foi bem menos acentuado, chegando à casa dos 90%.

O que a carta não menciona é que o "salto" do peso da folha foi bem maior na USP do que na Unicamp ou na Unesp. Em apenas um ano (2011 a 2012), o comprometimento da folha da USP saltou 14 pontos percentuais. Isso é muito maior que os aumentos na Unesp e na Unicamp no mesmo período, de 4 e 5 pontos respectivamente.

E o que ocorreu na USP foi um aumento significativo da folha em termos brutos entre 2011 e 2012. O gráfico abaixo mostra o valor do repasse do ICMS (9,57% do total arrecadado, por Lei) para as universidades. Esse repasse tem aumentado ano a ano. O que ocorre é que o valor da folha aumenta a uma taxa (ou "derivada") ainda maior, particularmente no caso da USP entre 2011 e 2012. Novamente, as taxas são menores no caso de Unesp e Unicamp (ainda que um pouco acima das taxas de aumento dos repasses).

Fonte: dados do CRUESP (link)

Um leitor mais atento pode fazer o seguinte raciocínio: "Bom, é natural que o ICMS tenha um aumento por conta da inflação a cada ano. Mas pode ser que os repasses de ICMS tenham tido aumentos abaixo da inflação enquanto a folha foi reajustada pela inflação, de modo que o peso relativo da folha ficou maior por uma simples reposição da inflação nos salários."

Para verificar isso, fiz um ajuste nos dados considerando o IPCA de cada ano e a figura não muda muito. Tanto o repasse do ICMS quanto o aumento da folha ficaram significantemente acima do IPCA (caso alguém queira fazer a conta com outro índice, fico curioso para saber o resultado).


E ficam as perguntas: o que ocorreu na USP entre 2011 e 2012 para justificar tamanho aumento na folha? E mais: como algo assim pode ocorrer sem que a administração tenha tomado providências? Não tenho respostas concretas para essas perguntas (embora se especule bastante nos corredores). De todo modo, fica óbvio que houve uma séria falha de gestão na última administração, que tem recebido várias críticas (justas) por não ter alertado a comunidade da gravidade da situação.

Por outro lado, me parece igualmente óbvio que uma boa universidade se faz, acima de tudo, com bons salários e pessoal técnico qualificado. Queremos atrair excelência no nosso corpo docente e técnico-administrativo. Assim, a proposta de 0% de aumento não me parece uma medida inteligente, uma vez que não mexe no cerne da questão: essencialmente, um problema sério na gestão da USP. Além disso, faz com que nossos colegas da Unesp e da Unicamp tenham que pagar por erros da antiga administração da USP, o que me parece injusto.

sábado, 12 de abril de 2014

BICEP2 e inflação cósmica: tá tudo dominado?

Na quarta-feira passada o prof. L. Raul Abramo deu um seminário sobre o experimento BICEP2 no "Convite à Fisica" do IFUSP.

Para quem não sabe, o BICEP2 é um experimento realizado na Antartida com detectores específicos para estudar a radiação cósmica de fundo em micro-ondas (ou "CMB", o popular "eco do Big Bang"). Resultados divulgados no final de Março apontam fortes evidências de uma assinatura de "marcas" de ondas gravitacionais impressas na CMB.

É um assunto fascinante e quente no momento. Se este resultado for confirmado, há fortes especulações de um prêmio Nobel, o que explica as manchetes mais exarcebadas. Para uma recapitulação do assunto (que, leigo que sou no tema, não farei aqui), vide um artigo da Nature, o texto do Marcelo Gleiser para a NPR, e blogposts de experts (mais avançados) aqui e aqui. Em português, recomendo os textos dos blogs Simetria de Gauge e Todas as Configurações Possíveis.

O seminário do prof. Raul foi bastante ilustrativo e chamou a atenção para alguns pontos importantes sobre a real relevância do experimento e da cautela que se deve ter antes de abrir o champagne para comemorar o prêmio Nobel.

Comecemos pela imagem que roda o mundo: o padrão de polarização medido pelo experimento.

"From BICEP2 collaboration/Nature (link)".
É uma imagem bastante ilustrativa. Vemos a "olho nú" um modo com um rotacional não-nulo, o chamado "modo B" de polarização que seria de ondas gravitacionais dos primórdios do Universo. No entanto, acho que o gráfico-chave da história toda é este aqui:


O gráfico mostra, a grosso modo, a intensidade na polarização do modo B de ondas gravitacionais versus o inverso da escala de comprimento das ondas  ("Multipolo"). As curvas vermelhas mostram previsões teóricas. A previsão para o sinal gerado por ondas gravitacionais é que ele domine em grandes escalas de comprimento ("Multipolo" pequeno), conforme indicado pelas linhas tracejadas.

Os símbolos correspondem a dados experimentais do BICEP e limites de detecção de outros experimentos "concorrentes". Como o eixo vertical está em escala logarítmica, vê-se, de cara, que o BICEP (pontos cinzas e pretos) conseque detectar sinais 100 vezes mais fracos que seus concorrentes (pontos coloridos), o que, em si, já é um feito notável.

O grande resultado é que os dados do BICEP2 (pontos pretos) mostram uma concordância muito boa com a teoria de ondas gravitacionais para grandes escalas (linha tracejada vermelha na parte inferior mais à esquerda).

Suficiente para estourar o espumante e esperar o Nobel? Well, not so fast. Como apontou o prof. Raul na sua fala (e também mencionado por Matt StrasslerPeter Coles em seus blogs) há algumas nuvens de chuva no horizonte.

Por exemplo, note que alguns os pontos pretos não seguem as curvas vermelhas para valores de multipolo em torno 200: eles desviam para cima, ficando acima mesmo da curva teórica que prevê para ondas gravitacionais geradas pelo efeito de lente gravitacional.

Retirado do blog de Matt Strassler  (link) .
Embora isso pareça um desvio "pequeno" no gráfico, é importante notar que:
i) A diferença para a curva vermelha está fora das barras de erro (embora os autores estejam confiantes de que sejam apenas artifatos estatísticos).
ii) A escala vertical é logaritmica, de modo que o desvio em valores absolutos não é tão pequeno assim.

Um outro ponto importante é que os dados do BICEP2 foram obtidos para apenas uma frequência de ondas gravitacionais (150Hz). A previsão é que o sinal seria robusto para uma gama grande de frequências.

EM RESUMO: O experimento determina o estado da arte em matéria de detecção de modos de polarização na radiação de fundo e os resultados são impressionantes. Muito possívelmente o sinal medido é, de fato, uma assinatura de ondas gravitacionais geradas nos primórdios do Universo. (vide update de 03/02/2015 abaixo)

Ocorre que há algumas características dos dados que ainda não estão bem explicadas. Além disso, por ter tomado dados em apenas uma frequência e em uma faixa restrita do céu, os dados atuais ainda são insuficientes para reinvindicar uma verificação experimental da teoria de inflação cósmica. É preciso aguardar um pouco mais (a publicação de resultados de outras frequências, por exemplo) para dar o veredito final.

Update (21/04):  texto da New Scientist, baseado em um artigo no arXiv, relata que  "loops de poeira" presentes no campo de observação do BICEP2 podem estar interferindo com a medida do modo-B de polarização.

A mensagem: até que os dados sejam confirmados (Planck? Keck?) e o sinal apareça em outras faixas de frequência, teorias sobre a origem do modo de polarização vão aflorar.

Update (14/05): Post recente do blog Résonaances (via Science Now) coloca em dúvida o método de subtração do sinal de fundo usado pela equipe do BICEP2. Esse sinal é radiação polarizada emitida por partículas de poeira galática (contribuição de "foreground") que deve ser subtraído para se obter a polarização no "background", supostamente advinda de ondas gravitacionais.

Aparentemente a equipe do BICEP2 usou dados "não oficiais" da colaboração Planck, retirados do pdf de um gráfico apresentado em uma conferência (!!) para estimar o sinal de "foreground" de emissão galática. No entanto, o gráfico teria outras contribuições, que tornariam os dados inadequados (para não falar do método pouco ortodoxo de "compartilhamento" de dados).

Houve o rumor que o pessoal do BICEP2 admitiu o erro, o que eles negam.

Novamente: especulações como essa vão aparecer e dar o que falar até que dados de outros experimentos (Planck, etc.) apareçam.

Update (03/02/2015): É oficial: BICEP2 não detectou ondas gravitacionais. Uma análise conjunta com os dados da colaboração Planck mostra que o sinal detectado pelo BICEP2 se deve, de fato, à poeira galática.

Essa vai para a história como mais um exemplo de que "descobertas extraordinárias requerem evidências muito, muito fortes". É o método científico em ação.