sábado, 19 de fevereiro de 2011

A saga dos recém-concursados

Alguns colegas recém-concursados na USP têm me perguntado quanto tempo leva o processo de admissão uma vez que você é aprovado no concurso. Aqui vai um "guia" que pode ajudar, escrito ao longo do processo (como um "diário" da saga) . O processo nas outras universidades estaduais paulistas é, acredito, similar. Nas Federais não tenho informação... se alguém souber e quiser adicionar um comentário, seja bem-vindo.

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Caro colega professor recém-concursado na Universidade de São Paulo,

Parabéns, o concurso passou e você foi o primeiro colocado! Comemorações, alívio e, inevitavelmente, as perguntas:

"E agora? O que acontece? Onde eu assino? Quando eu começo?".

Ocorre que entre "aprovado em concurso" e "professor nomeado" existe um labirinto burocrático que pode se arrastar por meses. Esse post é uma tentativa de mapear esse caminho.

Aliás, desde já aviso que essas informações podem não estar 100% corretas ou atualizadas (na verdade, acabei de saber que o processo já mudou um pouco de um tempo para cá) de modo que use o mapa a seu próprio risco!!

O decorrer do processo depende muito da Unidade (o que vou relatar se remete ao processo no Instituto de Física de São Paulo) mas, em linhas gerais, ocorre o seguinte:

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1 - A ata do concurso é produzida e o resultado é enviado para a Congregação para homologação. Em paralelo, o plano de trabalho é enviado ao departamento que abriu o concurso para aprovação no departamento e, depois, pela Congregação. Tudo é publicado no Diário Oficial.

Escala de tempo para completar o processo: dois ou três meses, talvez mais se tiverem férias no meio e/ou houverem recursos de outros candidatos. Tipicamente as congregações se reunem uma vez a cada mês e os conselhos departamentais idem. Muitas vezes não há reuniões em meses de férias (janeiro e fevereiro, por exemplo).

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2 - O Departamento convoca o candidato via Diário Oficial e recolhe a documentação. Além dos documentos óbvios (CIC, RG, título de eleitor, certificado de reservista) tem umas coisas não tão óbvias como fotos 3x4 , no. PIS/Pasep (ou negativa emitida em uma agência da CEF) e certidão de casamento (sim, para efeitos de previdência, eu imagino). Cheque com a assistência acadêmica da sua unidade.

Escala de tempo para completar: poucos dias. Essa é uma etapa que você pode já agilizar logo que passar no concurso. Se você sempre foi bolsista e nunca teve carteira assinada ou PIS/Pasep (aos leitores que estão fora do meio acadêmico: sim, isso é perfeitamente possível) você precisa ir até a Caixa e tirar uma "negativa", ou seja, um "não consta número de PIS" para anexar ao processo.

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3 - O Departamento encaminha o processo para a Reitoria para a nomeação.

Escala de tempo para completar: Pode chegar a dois meses ou mais. O processo passa por vários órgãos na reitoria, inclusive pela Consultoria Jurídica (CJ), onde eles analisam os aspectos jurídicos do concurso.

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4 - Em paralelo, a Unidade te encaminha para exames de laboratório e para agendamento de perícia médica (de acordo com o estatuto do servidor público) no Departamento de Perícias Médicas do Estado de São Paulo (DPME).

Escala de tempo para completar: Os exames médicos requerem atenção. O processo todo pode facilmente levar de 2 a 3 semanas ou mais, pelo seguinte:

Os exames laboratoriais (tipicamente hemograma completo, exame de urina, raio-X do tórax e eletrocardiograma) são, em geral, realizados no Hospital Universitário . Não há necessidade de agendamento mas você tem que estar em jejum de 8 a 10 horas e chegar cedo, pois a coleta de sangue e urina termina às 11h30 (10h30 se você quiser usar o SAND).

Os exames de raio-X e eletro são relativamente rápidos e o resultado sai na hora (se não for pedido laudo). O exame de sangue e urina é mais complicado: você pega uma senha e pode ter que aguarda de uma a duas horas (leve um livro ou um paper) o resultado sai em 3 ou 4 dias e você pode verificar na Internet (parabéns ao HU por isso!).

DPME

Além disso, você tem que fazer um cadastro e agendar a perícia no DPME. Isso é feito pessoalmente. Você pode fazer antes que os exames fiquem prontos mas você terá que ter os exames em mãos no dia da perícia. (NOTA: Parece que agora o DPME apenas realiza perícias depois da publicação da nomeação no Diário Oficial. Assim, você precisará esperar a nomeação para ir ao DPME fazer o cadastro).

Várias histórias sobre o DPME circulam pela Internet (como aqui, por exemplo) e vou me ater aqui a relatar minha própria experiência (que, dados os possíveis outros desfechos, foi satisfatória), colocando algumas idéias que poderiam tornar o atendimento mais eficiente.

A localização (próximo ao viaduto do Glicério) requer alguma atenção em relação à segurança ("Fica esperto, véio: você não está nos Jardins ou em Moema") e o atendimento exige paciência. Por algum motivo que me foge à compreensão, servidores de TODO O ESTADO tem que se dirigir até lá para perícias (por exemplo, para licenças médicas), muitas vezes mal podendo caminhar, o que é obviamente uma receita para funcionários do DPME sobrecarregados e pessoas descontentes.

Para chegar, recomendo ir de táxi. Ir de metrô requer um espírito mais aventureiro: se você é dessa turma (ou quer economizar no táxi), eu recomendaria descer na estação Liberdade e caminhar pela rua São Paulo (Mapa). Você pode também descer na Estação D. Pedro II e se aventurar pelo viaduto do Glicério (Mapa).

Cheque com a Unidade quais os documentos a serem levados. Tipicamente, você vai levar a requisição que o Departamento forneceu, cópias das publicações no D.O. (por ex., o Edital do Concurso, Convocação, Nomeação, e algo que descreva as atribuições do cargo), CIC/RG (e talvez tenha algo mais...) . Chegando lá, devem te encaminhar para o guichê 12 (Edson, eu acho) que é quem cuida de cadastramentos e exames de ingresso. Ele vai te colocar no sistema (por que os sistemas não são interligados? Isso também me intriga.) e agendar a consulta (tipicamente dalí a uma semana mas isso varia).

No dia da perícia, com os exames EM MÃOS, você pode já subir ao segundo andar (as palavras-chave são "perícia de ingresso". Dizendo isso ao segurança na catraca ele te encaminha ao 2o. andar). Chegue cedo e se prepare para a espera (de novo, leve um livro ou paper!). Lá dentro, você vai estar junto de outras várias pessoas que foram recém-aprovadas em concursos dos mais variados tipos para o funcionalismo estadual (Tribunais, Secretarias, etc.). A sequência é a seguinte: protocolo, consulta com o oftalmo, consulta com o clínico geral e, para mulheres, consulta com o ginecologista (que vai pedir outros exames também mas não estou certo de quais. Papa-Nicolau com certeza).

A propagação de informação lá dentro é feita no gogó mesmo: alguém grita "Fulano de tal, sala X" e, muitas vezes, o barulho das pessoas conversando pode te impedir de ouvir (outra pergunta minha: por que não colocam um sistema de senhas com um painel indicando a sala?). Na dúvida, pergunte! A dica é manter a calma e conversar com os funcionários do DPME com educação. Lembre que você vai passar por isso apenas naquele dia enquanto que eles enfrentam esse caos todo santo dia...

SE (e isso é um grande "se") você for uma pessoal completamente saudável e os testes não mostrarem nada de anormal, é bem provável que o médico te aprove na perícia. Caso contrário, ele pode pedir novos exames, agendar uma perícia nova, etc. Ou seja, mais tempo decorrido.

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5 - Finalmente, a nomeação é publicada no Diário Oficial! Você tem 30 dias (prorrogáveis) para assumir o cargo (é nessa hora que você precisa do parecer da perícia indicando "APTO" em mãos). Para assumir o cargo, você precisa estar presente no Departamento e, talvez, assinar um termo ou algo assim (o chefe do departamento vai comunicar oficialmente ao Diretor que "Fulano de Tal" está aqui!).

(NOTA: Como disse anteriormente, parece que agora o DPME apenas realiza perícias em funcionários já nomeados. De qualquer, modo você precisará do parecer indicando "APTO" para tomar posse).

Muito bem, o próximo passo é a Seção pessoal da sua unidade emitir uma declaração de que "Prof. Fulano de Tal está empregado desde tal data e recebe tanto por mês" para você levar ao Banco do Brasil para abrir uma conta na qual o seu salário será depositado. Note que você vai precisar de um comprovante de endereço em seu nome para abrir a conta (é, eu sei que não é fácil para quem está chegando a SP, mas converse na agência e veja o que você pode conseguir).

Uma vez que você tenha o número da conta, leve novamente na seção pessoal para que isso seja cadastrado no Sistema Marte. Se, por algum motivo, a sua conta não estiver aberta até a data do primeiro pagamento, você ainda recebe o salário mas como ordem de pagto no Banco do Brasil (você pode, inclusive, sacar na boca do caixa!).

A seção pessoal vai te dizer também qual o seu número USP (importantíssimo!). Com isso, você pode pedir um e-mail no domínio usp.br (e, imagino, eles vão te fornecer um e-mail do departamento também). É importante cadastrar esse e-mail no sistema "Marte" (administração de pessoal) para que você tenha acesso ao Sistema "Júpiter" (aulas na Graduação. Adooro esses nomes planetários!).

Ah, sim: e você deve ganhar uma atribuição didática! :)

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6 - Em torno de um mês depois da posse, você deve receber os "cartões" na Seção Pessoal: o vale-alimentação e o grande troféu do processo inteiro: um cartão USP com seu nome e foto, com a inscrição "Professor" (e com direito a acesso ao CEPEUSP!). Provavelmente você também receberá uma simpática caneca plástica do programa "USP recicla" (que eu guardo como uma lembrança inestimável). Bem vindo!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Presente de Natal

Papai Noel chegou mais cedo: saiu o resultado da Bolsa de Produtividade e Pesquisa do CNPq desse ano.

A lista da área de Física e Astronomia pode ser acessada aqui.

Um Feliz Natal e um ótimo 2011 a todos!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Escola na UFF

Nessa semana, dei um seminário em uma Escola financiada pelo Centro Brasileiro-Argentino de Nanotecnologia no Depto. de Física da UFF, em Niterói.

Foi uma ótima oportunidade de reencontrar alguns colegas (Alexandre Rocha, da UFABC, Flávio Plentz, da UFMG, Caio Lewenkopf e Andrea Latgé, ambos da UFF) e conhecer melhor o pessoal da UFF. Assisti também a ótimas palestras de nossos colegas argentinos, como Carlos Balseiro e Maria José Sanchez, do Centro Atômico de Bariloche (um centro de excelência em Física na terra dos hermanos), e Luis Foa Torres, da Universidade de Córdoba. (pdfs dos seminários estarão disponíveis em breve para download aqui). A "superorganização" ficou por conta do prof. Roberto Bechara e de seu fiel escudeiro, Filipe (em vias de defender o doutorado, com um trabalho bastante interessante sobre perturbações de spin dependentes do tempo e correntes de spin).

O público-alvo eram estudantes e pós-docs na área, de modo que os seminários combinaram conceitos básicos com tópicos mais avançados, na fronteira da pesquisa na área. Pontos "quentes" na escola foram "bombeamento quântico" e transporte em nanoestruturas, em suas mais diversas facetas (resposta linear, efeito Kondo, junções moleculares, efeitos de spin-órbita,...) além, claro, de grafeno, tema do prêmio Nobel desse ano (que já discuti em um post anterior).

Minha dica para os estudantes e pós-docs em Física e outras ciências: PARTICIPEM de escolas desse tipo. São uma oportunidade única de conversar e conviver um pouco com gente mais experiente na área que pode te dar algumas dicas e ensinar o caminho das pedras. Não se acanhem em puxar conversa (aliás, tive ótimas conversas com estudantes!). Além disso, em geral, despesas de estadia (em geral, um quarto duplo de hotel) e transporte são cobertas pela organização para os estudantes selecionados, o que sempre ajuda.

domingo, 28 de novembro de 2010

Saber (um pouco de) Física: para quê?

Boa pergunta. Aqui vai um exemplo bem prático.

Digamos que você esteja lendo uma reportagem sobre "colonização de Marte" na Veja e se depare com esse quadro:















(Veja, 3 de novembro de 2010, p. 103)


Note a frase sublinhada em amarelo e pergunte-se: ela faz algum sentido?

Para responder, o leitor de Veja tem que ter claro o que significa "uma pessoa de 80 quilos pesar 50 quilos". Ou seja, a diferença entre massa e peso. Esse último depende da aceleração da gravidade, que em Marte é em torno de g_m=3,7 m/s^2 ou cerca de 38% da aceleração da gravidade na Terra g_T (como informa corretamente o quadro).

Se o leitor souber a diferença entre massa e peso, faz uma conta simples e chega à conclusão que uma pessoa de 80 kg de massa pesaria 80 x g_m=296 N em Marte e 80 x g_T = 784 N (ou 80 "quilogramas-força") na Terra (onde g_T=9,8 m/s^2). Assim, o peso dessa pessoa em Marte equivaleria ao peso de uma pessoa de massa aproximadamente igual a 30 kg (=296/9,8 ou 38% de 80 kg) na Terra.

Logo, a frase "Gravidade: 38% da gravidade da Terra. Uma pessoa de 80 quilos pesaria 50 quilos" não faz sentido: mistura um dado real com uma conta errada e ainda confunde os conceitos de massa e peso. Soa tão esquisita quanto "o zagueiro Lionel Messi da Argentina marcou 3 gols na vitória de 1 x 0 sobre o Brasil."

É quase um consenso que precisamos criar uma capacidade de "análise crítica" em nossa população através de educação e formação adequadas. Ter "capacidade de análise crítica" é justamente ter a capacidade de captar inconsistências como essa em textos ou discursos (e não "ficar criticando o tempo todo", como alguns pensam).

Essa capacidade de detectar inconsistências do brasileiro médio é extremamente aguçada em relação a alguns assuntos bem familiares, como futebol e política. O ideal seria que a formação das pessoas as permitisse fazer o mesmo com outros tópicos, como Ciências e Economia. Afinal, seria ótimo se as pessoas discutissem os "níveis de emissão de gases estufa no protocolo de Copenhaguem" ou "metas de inflação para 2011" com o mesmo "conhecimento de causa" que discutem se houve ou não pênalti em cima do Ronaldo no jogo contra o Cruzeiro.

domingo, 7 de novembro de 2010

Sobre o Edital Universal CNPq 2010

Saiu o resultado do Edital Universal do CNPq desse ano. Como diz o nome, o Edital é uma chamada "geral", para todas as áreas do conhecimento, e em três "faixas": projetos até R$ 20 mil (a grande maioria dos projetos aprovados), projetos de R$ 20 a 50 mil e um terceiro patamar para projetos acima de 50 mil.

Foram submetidos em torno de 13500 propostas e aprovados cerca de 3500 projetos. Ou seja, a "taxa de sucesso" é algo da ordem de 25% (1 em cada 4 projetos submetidos são financiados), o que me parece bem razoável: nos Estados Unidos, por exemplo, a "taxa de sucesso" em editais do Departamento de Pesquisa em Materiais da National Science Foundation gira em torno de 20%-30% e pode chegar a 10% em chamadas mais concorridas.

O total de recursos é da ordem de R$ 120 milhões, divididos, essencialmente, por toda a ciência brasileira, incluindo aí Humanidades e Engenharias. Guarde esse número para comparações com outros custos/investimentos dos setores público e privado que aparecem na mídia: por exemplo, só as arquibancadas extras para permitir que o futuro estádio do Corinthians receba a abertura da Copa 2014 estão orçadas em torno de R$ 200 milhões. O custo total do estádio é algo da ordem de R$ 600 milhões.

No caso específico da área de Física, me chamou a atenção a competitividade de alguns departamentos "emergentes". O número de projetos aprovados por instituição em cada uma das três faixas (abaixo) mostra que departamentos como o da Universidade Ferderal de Uberlândia (UFU) ou os de universidades do Nordeste como a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) obtiveram um número de projetos financiados comparável (e, em alguns casos, até maior) que instituições mais "tradicionais" como a UFMG, particularmente na faixa até R$ 20 mil.

Minha impressão é que isso se deve, em boa parte, à leva de jovens doutores com forte foco em pesquisa contratados nos últimos anos em departamentos "menores", particularmente nas Federais. Isso seria uma ótima notícia, indicando uma difusão maior de boa pesquisa em Física fora do eixo Rio-São Paulo-BH.

Aqui vão os dados:

Física: projetos aprovados (até R$ 20 mil) (112 projetos):

1) USP - 9 projetos
2) UFG, UFRGS, UFRN, UFU - 6 projetos
3) UFAL - 5 projetos
4) UFABC, UFC, UFJF, UFSC - 4 projetos
5) UFF, UFMG, UFPR, UNB - 3 projetos
6) CBPF, UFES, UFLA, UFMA, UFPEL, UFRJ, UNIFEI, UNIVAP, UNIVASF - 2 projetos
7) EACH, IFMA-SÃO LUIS, IFMT, ON, PUC-GO, PUC-RIO, SENAI/DR/BA, UDESC, UECE, UEFS, UEL, UERJ. UERN. UESC, UFBA, UFERSA, UFOP, UFPA, UFPB, UFRPE, UFS, UFSCAR, UFSM, UFTM, UFV, UNESP, UNICAMP, UNICASTELO - 1 projeto

Física: projetos aprovados (R$ 20 mil a 50 mil) (26 projetos):

1) USP - 6 projetos
2) UFAL, UFPE, UNICAMP - 2 projetos
3) INPE, PUC-RIO, UEM, UFAM, UFC, UFOP, UFPA, UFPB, UFPEL, UFPR, UFSC, UFSCAR, UFV, UNESP - 1 projeto

Física: projetos aprovados (R$ 50 mil a 150 mil) (12 projetos):

1) UFMG - 2 projetos
2) USP, UNICAMP, UFSCAR, UFRJ, UFRGS, UFPE, UFMT, UFC, UERJ, UEM - 1 projeto

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Nobel de Física de 2010...

...foi para Andre Geim e Konstantin Novoselov, do chamado "grupo de Manchester", por seu trabalho em grafeno. Por uma dessas coincidências incríveis, eu havia citado Geim e seu trabalho em um post anterior sobre o prêmio Ig-Nobel (até onde eu saiba, ele é o primeiro a ser honrado com os dois prêmios!).

Para quem não sabe, grafeno é um material formado por átomos de carbono em arranjo hexagonal plano (como uma "folha de favo de mel", vide figura). Até aí, nada demais: o grafite (sim, o do lápis e da lapiseira) é bem parecido, mas formado por várias dessas folhas "empilhadas".

O desafio era conseguir isolar as folhas de grafeno monocamada, ou seja, folhas com a espessura de um único átomo de carbono. Vários grupos competiam para desenvolver um método eficiente para produzir monocamadas de grafeno e o breakthrough veio com Geim e Novoselov: eles conseguiram grafeno monocamada de forma eficiente e barata, essencialmente usando fita adesiva (sim, durex comum) para separar as camadas de grafeno a partir de grafite (vide o artigo de 2004 na Science).

Do ponto de vista de aplicações, o grafeno tem várias propriedades interessantes, como uma facilidade em conduzir corrente elétrica e, ao mesmo tempo, ser um material flexível (vide, por exemplo, esse vídeo), embora dispositivos baseados em grafeno ainda estejam engatinhando devido a uma série de dificuldades técnicas.

Há também bastante espaço para pesquisa em novos fenômenos em Física básica: os elétrons em grafeno se comportam efetivamente como se fossem partículas "sem massa" (como neutrinos, por exemplo) para voltagens pequenas, próximo ao chamado "ponto de Dirac". Essas propriedades não usuais e as possibilidades de aparecerem coisas novas e diferentes atraem os Físicos "como abelhas no mel", o que gerou um boom de pesquisa em grafeno a partir do publicação do artigo de Geim e Novoselov em 2004, inclusive por grupos no Brasil (vide, por exemplo, um tutorial elaborado pelo Prof. Caio Lewenkopf (UFF)).

O que chama a atenção é que o Nobel para o grafeno veio bem rápido. A pesquisa em grafeno é um dos tópicos "quentes" em Física da matéria condensada e o grande "boom" se deu a partir de 2004, justamente com o trabalho do Geim e outros (como o grupo de Philip Kim na Universidade de Columbia). Acredito que o prêmio é merecido, embora exista o risco de uma "overexposição" do assunto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ig-Nobel 2010

Saiu a lista dos vencedores do Ig-Nobel de 2010.

Destaque para o prêmio de Física: pesquisadores neozelandezes publicaram um artigo em que demonstram cientificamente que "usar meias sobre os sapatos é um método efetivo e barato para reduzir a chance de escorregar em calçadas congeladas." Merece o Ig-Nobel.

Vale lembrar que a lista de recipientes do Ig-Nobel inclui físicos famosos, como Sir Michael Berry, o mesmo da "fase de Berry" em mecânica quântica, sempre cotado ao prêmio Nobel, e Andre Geim, famosíssimo hoje em dia pelos seus trabalhos em grafeno, em particular o artigo que introduziu o "método da fita durex" para produzir folhas de grafeno monocamada. Ambos ganharam o prêmio em 2000, ao fazerem uma rã levitar (sim, "levitar") usando campos magnéticos.